Quem assistiu à animação KPop Demon Hunters, da Netflix, pode ter percebido referências ao folclore coreano nos figurinos dos Saja Boys. O boygroup fictício, que faz parte da trama, traz elementos visuais associados ao jeoseung saja (저승사자), personagem tradicionalmente encarregado de conduzir os mortos ao outro mundo.
Enquanto o ceifador ocidental costuma ser representado como uma figura esquelética, encapuzada e armada com uma foice, os mensageiros do submundo na cultura coreana aparecem em representações tradicionais como homens vestidos com hanbok, traje típico do país, em versões coloridas que contrastam com a imagem sombria associada à morte.
Na tradição, a atuação do jeoseung saja está relacionada ao Rei Yeomra (염라대왕), soberano do submundo e responsável pelo julgamento das almas. Ele integra uma estrutura na qual os mortos são conduzidos por mensageiros encarregados de cumprir funções específicas.
O trabalho do ceifador coreano consiste em buscar aqueles cujo tempo de vida chegou ao fim e acompanhá-los na passagem para o além, em um percurso na Estrada de Hwangcheon (황천길). Essa via trata-se de um caminho metafórico de transição da vida para a morte. Sua atuação, portanto, não está necessariamente ligada à escolha de quem deve morrer, mas à execução de uma determinação atribuída ao mundo espiritual.
A hierarquia do além
A ideia de uma estrutura organizada também aparece nas representações do submundo conhecidas como myeong-bu (명부), associadas à administração dos mortos. Obras do período da Dinastia Joseon (1392–1897) apresentam outros mensageiros que atuam nesse sistema, como o gamjae saja (감재사자), o primeiro rosto visto por quem está à beira da morte, e o jikbu saja (직부사자), responsável pela entrega de registros aos governantes do além.
Superstição popular
Dentro da consciência coletiva de superstições, sonhar com a figura, por exemplo, pode ser interpretado como um presságio de morte. Contudo, é importante lembrar: essas crenças variam conforme as tradições e não devem ser confundidas com uma interpretação única compartilhada por toda a população coreana.
O ceifador reúne referências de diferentes tradições religiosas e culturais, incluindo o budismo, o xamanismo e concepções hierárquicas presentes na sociedade coreana histórica. Nesse sentido, morrer representa também uma passagem conduzida por agentes que respondem a uma autoridade superior.